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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SOLILÓQUIO

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse idiota, abriria muitas portas???!


terça-feira, 19 de julho de 2011

CULPA

Quando bateu o lado desprotegido do meu rosto, entre fragmentos de dentes, clamei à sua consciência um gesto de remorso; quando cravou suas unhas na pele vulnerável dos meus lábios, balbuciei, esforçado, uma frase que atenuasse o impulso de dilacerar; quando suportei no meu maxilar todo impacto do punho inoxidável, ao acordar, chorei. Porque não tive forças suficientes para encontrar um caminho de arrependimento em seu ventre.

sábado, 16 de julho de 2011

VENTRE PARALELO

Projetou-se, do escuro da entrada até a fronteira da porta, com os olhos vermelhos. Deviam estar marejados, há pouco. Não na minha frente. A farda que portava não lhe dava o direito. Além de militar, era pai. Como denunciava a carteira de estudante na extremidade do braço pendente. Parou diante do balcão, em pé, mas sustentando um corpo desfalecido. Achei que me apresentaria a carteirinha.

- Sou o pai da moça que morreu.
Ele trazia na frase a certeza que não precisaria, naquele momento, de uma identidade para se fazer entender. Havia apenas uma moça naquela situação. Não na delegacia. Àquela altura, no repouso frio da câmara gelada, o “podrão”, do Instituto Médico Legal.

Nunca houve frase justificável o suficiente para finalizar o silêncio que imperou. E ainda impera a cada segundo que tento fazer as palavras pousarem neste texto para dar vazão à história. Se a tensão freava tudo antes, o pai da vítima desconstruiu o cenário de crise silenciosa com a frase que me atormentaria desde aquela noite até hoje – e eu jurava que ela ficaria dentre a lista de frases que tememos ouvir, mas nunca são pronunciadas.
- Como foi? Você sabe me dizer como foi?

Eu sabia.

Quando o telefone tocou no início da tarde, parecia mais uma ocorrência provocada pelo excesso de uso de drogas. A rotina faz desse tipo de ocorrência um fato frio. Mais uma vez apenas a vida que se encerrava meio aos leitos e à fedentina de mofo de motéis travestidos de hotéis de quinta.
Ao chegar o local, nada da vítima. Havia sido encaminhada ao hospital em uma ambulância. Ao invés de vestígios que dissessem algo além do que esperávamos para mais um caso de overdose, a informação intrigante de que a ambulância tinha sido chamada pelo acompanhante da moça. Não é comum alguém alertar e fugir. Salvo se for uma testemunha, a quem convém o anonimato.

Com o final dos números e as letras da placa de um carro, cheguei ao dono do veículo. À dona. A surpresa é o fator essencial nas diligências policiais. E ela estava lá, dentro das palavras da proprietária do veículo que atendeu minha ligação.
- Deve haver algum engano, meu senhor. Eu estava dormindo. Meu carro está na garagem...estava...Flávio?! Fláviooo???? Só um momento, policial, estou ligando para...para o meu namorado...

(...barulho de discagem de celular)
- Flávio? Flávio, você saiu de casa?! Com meu carro, seu f...??!! Tem um policial aqui no telefone comigo, sabia?

Em meia hora exata, o tal Flávio deu as caras no meu plantão. Devia mais à namorada do que à Justiça. Só deixou a moça no motel depois da ambulância ter chegado. Prestou socorro.

- Ela que foi me buscar. Em Ceilândia. Disse que tava virada há três dias. Disse que ia pegar um carro pra nóis sair. Ela queria cheirar. Tava bêbada. Fomu pro motel, hotel, sei lá. Ela bateu as carreiras. Cheirei. Ela cheirou. Tentou cheirar. Logo de cara, quando meteu o nariz, o sangue pingou. Caiu durinha e se debateu, babou, babou muito. Espuma pra cacete. Chamei o SAMU. Esperei chegar e pinei! Minha mina ia me matá se soubesse. Ainda vou me fudê, ela já sabe.
O cara pegou o carro da namorada, foi cheirar com outra em um motel, a moça morre. Se queria ficar maluco, conseguiu.

- Queria saber como foi, você sabe, agente?
A frase do pai me tirou do insight.

- Sabe, agente, esta aqui é a minha filha.
Finalmente a carteirinha.

- Ela tinha uns problemas com bebida. Disse que ia parar. Fez vestibular. Educação física. Há três dias, fez a carteirinha de estudante. Veio me entregar. Não tive tempo nem de dar os parabéns. Tinha saído para comemorar com as amigas. Disse pra mãe que não esperasse. Ia demorar. Não sabia que horas voltaria...
Eram palavras ditas com rancor. Com o gosto azedo de um passado que talhava na boca e se pretendia cuspir. Enquanto a carteira em punho era um talismã, a sorte de um futuro que lhe adoçava as idéias, interrompidas, sem que pudesse desfrutar dessa sensação vaga que é ser, ou tentar ser, normal.

- Então, cana, como foi?
- Meu turno é o quinto. To chegando agora. Não sei como foi. E se soubesse, também não falaria.

Fiz um favor ao militar. Ele precisava odiar alguém. Por algum momento. Nesta profissão, à vezes é preciso se doar...

terça-feira, 12 de julho de 2011

ARGONAUTA ENGASGADO

Para cantar, basta ouvir. Mas não consegui ler a partitura da sua valsa desencontrada. Triste plateia a reter o aplauso. Tombo previsível. Fosso invisível. A ponte carregada de passos das falsas caminhadas tombou.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LADEIRA ABAIXO, FIM DE FANTASIA

Desceu outra vez. Decepção. De novo, reconheço-a mais aprazível dos que das vezes anteriores. Tomou seu posto. Ação indigna. É o oposto do que fantasias de decadência e insultos na madrugada insone lhe haviam investido. Chegou: riso e simples. É seu todo o instante, desde o primeiro degrau.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

RECONHECIDO NO INFORTÚNIO


Um ditador tocou minh´alma. Com um riso, fez posto na margem débil dos meus limites. Reconheceu coragem. Aventou simpatia. Mas está na trincheira vasta da poesia que a realidade açoita. Pobre herói de todo dia.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O FINAL (QUASE) FELIZ DE UM PENTELHO BRANCO

Confesso que, durante algum tempo, fiquei impotente diante da possibilidade de encarar um devastador final feliz. Literatura é a vida. Final feliz e ficção. Em raros casos, encontram-se. E, em geral, consolida-se uma tragédia. Vamos aos fatos.

Benedito empunhava na mão, cujo indicador e o polegar formavam uma pinça, um cabelo crespo. O leitor óbvio já adivinhou se tratar de um pentelho. E branco. O título é franco. E assim iniciei meu atendimento a Benedito. Sujeito ainda novo.

- Sujeito ainda novo...Sabe, policial, quando querem ser gentis, as pessoas dizem que ainda somos novos. As palavras sobrevivem ao tempo. Nós, não. Sou cronista, o senhor sabia? E prometi a uma sacaninha que ela não valia uma crônica minha.

Assim como o cronista parecia se entreter filosofando sobre sabe-se-lá-o-quê, inspirado em um pentelho branco, eu me contive para não lhe falar: “caro cronista, lamento informa-lhe que sua profissão tem no tempo sua matéria, sua pauta. Seja o tempo da rapidez de um fato que escapa à maioria, seja o tempo que empalidece diante do tédio. 

Porque o tempo do cronista é sempre colorido. Não coincidentemente, crônica tem na sua origem a palavra Cronos, nada mais que Saturno, o senhor do tempo na mitologia”. E por que eu falaria uma merda assim para alguém, em plena madrugada. Iríamos nos perpetuar em uma maldita tertúlia. Voltei a prestar atenção “naquelezinho”.

- Não tenho nada para escrever dela, policial. Eu tinha. Tinha, sim. Ela era diferente. Autêntica. Dezenove aninhos e autêntica, segura, menina e já segura de si. Envelheceu com 25. Depois de seis anos, a gente se vê, finalmente, e ela envelheceu. Ficou velha. Ficar velho é ficar como todo mundo. Ela ficou como todo mundo.

- A polícia não para o tempo. A polícia para bandido. E para inocente. E o senhor? O que deseja?

- Registrar um desaparecimento de pessoa. Ela me encheu de porrada, cacete! A gente se encontra, depois de seis anos, e ela me enche de porrada. Me desmaiou em frente a um bocado de pessoas.

- Porrada?!

- Me deu uma gravata, um mata-leão. Apaguei.

- Lesão corporal. Quer registrar lesão corporal, é isso?

- Não. Desaparecimento de pessoas. Aquelazinha roubou minha menina. Minha lembrança. Colocou um brucutu de saias no lugar.

- Mais uma vez: polícia não registra poesia. Registra ocorrência.
Mais estranho que a presença do sujeito era me dispor a ver onde aquela conversa chegaria.

- Olha, companheiro, não tem como registrar o desaparecimento. Iria mobilizar uma cambada de gente apenas para dar conta do seu sofrimento. Mas me conta, o que fez a menininha sair do sério e lhe desmaiar?

- O crepúsculo do macho, o crepúsculo do macho. Eu achei que seria fácil minha cabeça moderninha suportar o tempo. Mas o crepúsculo do macho é mais forte do que a hegemonia do cérebro. Sim, a importância do homem cresce de baixo para cima. Eu conheci a menina quando era novinha. Nós nos separamos. Eu a achava nova demais. Ela, que eu era velho demais. Mas o que nos o desejo recíproco. Não me importor de ser velho. Mas dói é não ser desejado.

- Ué, mas ela não precisa gostar para sempre...

- Mas ela conversava com você. Talvez diga alguma coisa.

- Quando a gente quer, tudo, tudo diz alguma coisa. E sabe o que ela queria dizer? Sabe? Que não se impressionava mais comigo. Que eu era tão impressionante quanto café passado em dia frio. E tudo isso porque ela, ela está no auge do vigor físico,sexual...vinte e cinco aninhos. Entendeu? E eu passei de protagonista a lembrança. Uma baixaria. Soube disso tudo em meio a uma baixaria. Sabia que eu sou um babaca?! Sou, ela quem me disse. E repetiu, para ficar claro. Mas sepultou tudo com o um...”velho babão”. Nem se deu ao trabalho de ser original. Aliás, quis me colocar mesmo na porra da vala comum.

- E a polícia, onde entra?

- Quero minha menina!

- O senhor quer é seu tempo de volta. Mas não temos como recuperá-lo.

- Eu tenho uma pista de onde ele está. Se eu ajudar, o senhor tenta encontrar?

- Que pista é essa?

- Aqui!

Lá estava o exemplar descolorido de um pelo pubiano na mão do meu interlocutor.

- Depois de ouvir tudo o que ela disse, enchi a cara. Tomei todas. Quando acordo, de manhã, decidi ir ao banheiro. Para meu desespero, me deparo com um pentelho, mas não um pentelho qualquer. Um pentelho branco. Porra, branco! Como é que faz? Pinta? Corta?

É, caro cronista, a solução para o tempo é penteá-lo, quando restam cabelos. Mas minha filosofia sobre o tempo não se embrenha nos  vagos abismos pubianos. Assim, restou-me cordialmente lhe convidar a um retiro que começaria nos limites da porta (de lá para fora!) de minha delegacia. Só não lhe disse - e você descobrirá - que o branco, que lhe cobre cabelos e descolore o púbis, é uma cor que se forma da reunião de todas as outras. Seus pelos brancos são frustos de anos coloridos. Com essa resposta, despedi-me de você, e consegui destilar um certo mal gosto, capaz de colocar-me a salvo de um final totalmente feliz.