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segunda-feira, 30 de maio de 2011

A ESFINGE E O VÔMITO

Durante algum tempo, a esfinge me devorou.  Eu me reconstruia em seu fígado. Demorou. Mas nutri-me de um fel adiposo que sustentou minha vida. Vivi da bilis da esfinge. Até poder decifrar-lhe o segredo. O segredo estava na brotoeja albina. Sim, eu finalmente entendi o significado da cegueira branca explicitada por José Saramago no livro “Ensaio Sobre a Cegueira”. O branco que lhe cumpriu – a ele e a todas as personagens – é o nó górgeo do criador literário sem expressão. É a síndrome do papel em branco. Agora, tela em branco.
Ela cobriu a visão das personagens. Mas o escritor soube desvendá-la, mastigá-la, dirigi-la e ir ao ponto glorioso de nos vomitá-la com sua obra. Perceber a façanha de Saramago e dela me valer foi cravar minha luz no fígado e, depois, no lado interno do ventre da esfinge. Que vomitou-me como uma resposta. E aqui estou. Para fazer de cada ponto branco uma resposta sua, leitor. Ainda que você a devore.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ROTA



Meu silêncio eloquente é a rota dentro de um mar bravio. Eu volto!

domingo, 24 de abril de 2011

O SILÊNCIO DOS ELOQUENTES



Albert Eichmann.  Nasceu em 1906 e terminou seus dias em 1962. Pendurado em uma corda. Punição! A lei do retorno em seu desfavor. Grosso modo, um homem de logística. Cuja tarefa consistia em dar vazão ao “aglomerado” de homens e mulheres de origem judaica que eram encaminhados às suas mãos pelo Estado alemão – em guerra contra a vida, dos outros.

Soube de Eichmann por uma filósofa: Hannah Arendt, judia de origem alemã. Ao cobrir o julgamento do nazista - ela foi enviada a Israel pela revista New Yorker - acusado por vários crimes de guerra, ela captou na essência daquele homem, e, para definir a ele e a todo o contexto no qual ele se inseria durante anos de carnificina, cunhou a expressão – banalidade do mal. Muitas a usaram, plagiaram, descontextualizaram. É um termo que exprime a quase alienação do carniceiro em relação ao mal que causou, valendo-se para isso de suas deturpadas noções de lei, Estado, burocracia, sociedade. Há outras peculiaridades no caso, ainda. Como o palco que o Estado de Israel montou, em âmbito mundial, uma das grandes medidas de propaganda política do pós-Guerra e de consolidação daquele Estado. Foda-se e a militância pró ou contra o sionismo – de onde quer que se erga – e vamos aos fatos, meus fatos.

Até aqui, só reminiscências. Mas Eichmann doeu. Machucou. A minha madrugada insone me conduziu a um sítio, o do pomposo e prestigiado periódico francês “Le Mond”. Que merda a madrugada faz com a gente.

Descobri que o julgamento de Eichmann tornou-se disponível pela internet. E voltei minha alma para as palavras de Hannah Arendt. As imagens do julgamento são simples, e por isso devastadoras. Porque atuais, passadas e, então, presente.

Ao descrever Eichmann, Hannah o faz dentro de seu conceito de “banalização do mal”, concluindo que o sujeito é de uma fina estirpe que agiu dentro das regras do sistema a que pertencia sem critérios sobre seus atos. Bastava-lhe cumprir ordens, desde que viessem de insanas “instâncias superiores” – uma alienação da responsabilidade. Para aquele tenente-coronel da SS nazista, lei era lei, perversa ou não, e foda-se o resto! Até que ele se fudeu!

Eichmann, o condenado à forca. O tenente-coronel com cara de vizinho chato, que se sentiu deprimido porque não tinha nenhum grupo a seguir quando do fim da guerra – até então, era fiel sócio da SS nazista. Eichmann, que apenas seguiu as regras e ordens. Uma regra escrita, ainda que perversa.

E nós? Existem Eichmanns do lado de baixo do Equador?

Como, se o que temos são regras democráticas do mais sacro pluralismo...?!

Pois a perversão, entre nós, está na regra não escrita. No implícito comando do “faça errado porque todos fazem assim, não adianta, não vai mudar nunca”.

E é essa a regra que prevalece, a da lei da vantagem. E todos nós a seguimos e, assim, vamos enchendo nossos comboios de almas, com as nossas caras e mãos lavadas, seguindo as regras. E em silêncio. Eichmann já não é vizinho: está dentro de casa, dentro de cada um de nossos silêncios eloquentes.

sábado, 16 de abril de 2011

A ALIANÇA E A VIZINHA

Seja gentil, por favor. E, sempre, ao se dirigir ao balcão de uma delegacia,vá sozinha (o). Não, sua vizinha (o), amigo (a) e qualquer outra companhia não lhe darão o apoio que espera. Eles querem fazer de sua vida tudo aquilo que Nero fez a Roma.

Fique atento aos conselhos de seu vizinho, para não segui-los. Assim, evitará uma segunda visita à delegacia. Como foi o caso de dona Joaninha. Ex-esposa de uma união matrimonial cujos laços perduraram por mais de 30 anos, daqueles casamentos que iriam durar, mas durou até que uma vizinha os separou. Ao menos em parte.

Dona Joaninha apareceu, acanhada, no horário em que, juntos, plantão e expediente atendiam as mazelas de nossos clientes. Ainda de dia, foi fácil lhe notar o jeito constrangido. Assim como o despachado compartamento da que lhe acompanhava.

- Tem, sim, amiga. Tem que registrar. Não deixa ele escapar assim. Fez, tem que pagar. Confia, amiga, ele tem que pagar. Eu sei que tem.

O que a sapiência da vizinha de dona Joaninha não desconfiava é de que adultério, já há algum tempo, não é mais crime. Portanto, era em vão a tentativa de tentar registra comigo os desvios de conduta do seu Antenor. Aliás, dona Joaninha nem queria “denunciar” o descuido do marido. Estava ali porque havia desabafado com a vizinha mal informada. E aceitara a companhia dela para colocar o cônjuge “na Justiça”.

- Exato, senhora, não é mais crime.

- É crime, sim! O que ele está fazendo com minha amiga é um crime!

- A senhora quem é, perdão?

- A melhor amiga dela. Eu a convenci a vir aqui, ela tem que colocar o safado no pau!!!

- Senhora, faça a gentileza de aguardar naquele banco, ali em frente.

- ...

- Por favor!

- ...

- Obrigado!

- Sabe, seu policial, eu nem queria registrar ocorrência. Casamento que acaba, acaba. Mas ela insistiu tanto. Vamos embora. E olha que custou tanto chegar aqui. Tenho ciática. Varizes. Sei que ele não faz por mal. Mas como se vive depois de um casamento de 40 anos. Só aprendi a ser dona de casa e a ser viúva, mais nada. Quero ir-me embora. O senhor perdoe.

E lá se foi dona Joaninha em meio à tarde improdutiva.

Assim como retornou tarde da noite. No quinto turno.

Mão enfaixada. O andar claudicante, de pernas cansadas. Apoiava-se em alguém cujas feições lembravam a dela, sem as tantas manchas que intempéries vivenciais lhe haviam pregado. Sua filha, o mais provável.

- O que foi dona Joaninha?! Como a senhora se machucou assim?

Ao estender a mão, notei-lhe a ausência do dedo anular.

- Deus do Céu, o que houve...???

A filha me respondeu. Ao voltarem da delegacia pela tarde, a vizinha avistara “uma dona” descendo do veículo. Foi o que bastou para que dona Joaninha se visse agarrada pelo braço, seguindo a desabalada carreira da vizinha em direção ao seu marido.

Já próximas, a vizinha lhe gritou aos ouvidos:

- Fala, fala para este ordinário tudo o que precisa ouvir!

Dona Joaninha, contou-me a filha, mal tinha fôlego para sustentar-se nas pernas, e ia tinha os joelhos já dobrando, quando decidiu apoiar-se na porta do carro. Quando, assustado, resolveu o marido arrancar com o veículo. Ao que, sabe-se lá como, ficou presa a aliança de dona Joaninha, em sabe-se lá qual lugar.

Resultado: um dedo e uma aliança a menos na vida de dona Joaninha.

A vizinha? Dela, a última recordação vinha da filha de dona Joaninha e era um diálogo, no hospital onde sua mãe fora atendida:

- Vou nada! Tô cansada de delegacia, cansada de resolver problemas dos outro. Vocês que são a família que cuidem. Na hora de se meter com o traste, ninguém me perguntou nada. Briga de marido e mulher...







terça-feira, 29 de março de 2011

A LÍNGUA DA SANTA


Acabou em guerra. Santa! Gente presa. Gente rezando. Peregrinação à cela. Faltou algema para quem queria.  A razão do estardalhaço é tão antiga quanto as letras do alfabeto que compuseram os Dez Mandamentos – religião.
Minervina, uma já senhora que se propaga ainda virgem, é do ramo das igrejas carismáticas. Ou igreja carismática. Em nada, tal fato deve interessar ao leitor, ou mesmo ao autor. Não fora o fato de a conduta a que nossa beata se impunha ter reflexo imediato nas relações de trabalho de nossa, digamos, personagem. Ela não mentia!!! E acreditava, fielmente, que nunca fazia isso. A informação não nos cabe vasculhar, assim como a crença religiosa de nossa santa, reitero. Todavia, o detalhe desta passagem está exato na situação dela ser secretária, e ter como atribuição atender o telefone da chefe.
Pobre chefe, a de Minervina. Que atendia demanda sobre demanda, já que a secretaria recusava-se a inventar uma ausência ou uma desculpa, a fim de que sua superior conseguisse se desonerar da farta lista de compromissos profissionais – boa parte dele decorrentes dos telefonemas que a secretaria lhe encaminhava sem piedade.
Outra peculiaridade da fé professada por Minervina estava no alto grau de solidariedade. Se mentir fosse necessário, ela delegava tarefa de tamanha envergadura a Amanda, colega de expediente a quem cabia o sacrifício d´alma. Assim, garantia seu quinhão no Céu – e, por que não, o salário – à custa do “martírio” alheio.
Já com um pé na casa do “dito cujo” de tantas mentiras inventadas, Amanda decidiu pagar por um espacinho a mais no porão do “coisa ruim”. Vendeu sua alma para um pecado de ébano chamado Miltinho, cujo diminutivo se encontrava apenas no nome. Ah, em tempo: o pecado estava na mão de Amanda – em específico, no dedo anular esquerdo. Mas o negão, dizia, valia a reza redentora (curioso, em se tratando de uma agnóstica).
Resumo da ópera. Cansada da sinceridade da secretária e beata, sua chefe lhe incumbiu de represar todos os telefonemas, para que pudesse trabalhar em paz. Com ou sem mentiras. Ausente, Amanda não poderia salvá-la – àquela altura, encontrava-se com Miltinho em um canto qualquer da repartição, ou sabe Deus onde. Entre ser despedida e se queimar no inferno, Minervina optou pelo mais imediato: queimar, depois, no inferno, a queimar-se, de imediato, no braseiro profissional. E tantos foram os pecados que lhe corroíam a alma que não pensou duas vezes ao ouvir do lado de lá do telefone a pergunta do marido da colega de serviço:
- Amanda está?
- Agora, ela está no inferno, com o Miltinho, e quer me levar junto. Minha chefe também. Minha chefe também!!!!
Quando coube ao meu turno a apuração do quiprocó que se estendeu da repartição até a delegacia, por obra e graça do absurdo da história, nem o marido de Amanda entendeu nada (ele fora à delegacia achando que a mulher tinha sido vítima de sequestro relâmpago), nem Amanda entendeu nada do telefonema apavorado que recebera do marido (e a obrigara a se dirigir, ainda de cabelos molhados, à delegacia), nem Miltinho, a serpente da história, sabia como Amanda o havia convencido a levá-la ao meu balcão para explicar um suposto mal entendido provocado por Minervina.
Como cada qual sabia, ou fingia saber, apenas de parte da história, coube a este que vos escreve juntar os elementos e...mentir. A fim de evitar que pecados mais radicais não constassem da lista maculada de Amanda (homicídio de Minervina), de seu marido (homicídio de Amanda e Miltinho) e de Miltinho (cobiçar a mulher do próximo – se bem que, como me confessou, seu pecado estava mais para a gula do que para a luxúria).
Só não houve jeito para se dar à alma de Minervina. Nem a minha. O pecado dela era o de achar que não mentia nunca. E o meu de achar, a esta altura de minha vida, que minto sempre.