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sábado, 13 de agosto de 2011

SOCO DE VELUDO

A barbicha era a de sempre. Maltrapilha, rala, irregular. Não fosse a sobreposição anárquica de pelos brancos, nada lhe denunciaria a passagem do tempo. Apoiado no nariz adunco, um óculos redondo no melhor estilo trotskista. Poucos flagelos dos anos, suficientes, porém, para encorajarem meu teatro dissimulado, que me desobrigou de admitir que o tivesse reconhecido.
A cabeça baixa, olhos fixos em um destes jornais vagabundos usados para lavar dinheiro da politicalha inescrupulosa, e um passeio pela memória.  A busca por momentos de convívio com o ex-colega de trabalho que seguia, sem me reconhecer, em minha direção.
Um passado que trazia a lembrança de uma figura reticente. Eu sempre a lhe censurar, no íntimo, o acanhamento de ousadias, a palavra insegura. Se bem me lembrava, eu tinha convicção inabalável de que eram as minhas iniciativas as bafejadas pela sua escolha, as que ele queria barrar, sempre que eu ousava tentar algo. O que fazíamos? Investigávamos crimes contra a administração pública.
Eu queria mudar o mundo. O que significava prender metade de todos os que eu achava que roubavam. E eram muitos. Muitos...
Ele foi sempre a última versão dos relatórios que escrevíamos. E meu sonho de um mundo mais justo sempre era adiado por suposições temerárias e afirmações sem risco, nada categóricas, com as quais ele preenchias as folhas. Assim, eu pelejei dias e dias contra a cruz da inércia do meu parceiro.
Sempre tive a teoria de que crescem na carreira os que vão ficando ano a ano nos mesmos lugares, graças à submissão. Se a coragem lhes falta, sobra nos que não se intimidam diante do desgosto provocado por decisões equivocadas ou escusas. E sempre que eu refletia sobre esse tema, era aquele “Zé” que me vinha à cabeça segurando uma bandeira, com brasão da “Escuderia dos Omissos”.
Para meu espanto, ele ficou conhecido como Zé do Siso, porque era à sua consciência que os chefes acorriam na busca de orientações sobre como atuar de forma prudente em operações policiais. Entrava em sua sala, ouviam suas frases cheias de reticências e saiam arrotando exclamações. E o que era medo virou cautela; quem era covarde virou lenda. De longe, eu acompanhava a mística que se desenvolvia em torno do ex-colega. Que chegou ao status de intocável lenda...ou quase isso, entre colegas e chefes.
O tempo me martelou o juízo de forma eficiente o bastante para entender que covardia anda próxima à precaução, mas nem sempre se dão os braços.
E que somos sensíveis. Todos nós. Desde que nos falem o que nossos ouvidos vaidosos acolham como elogio.
- Cara, você aqui?! Virou plantonista. Dia desses, falei com o um colega que queria saber onde você estava.
- ...
- Mermão, gosto de você. Devia ter feito como você, que ganhou o mundo. Mas fui ficando, ficando. Quero é me aposentar. Bicho, virou uma merda. Ninguém mais trabalha com coragem. Você é um cara honesto. Gosto de você. Bom te ver!
Registrou a admiração. A ocorrência? Nem eu sei. Foi embora: decidido. E eu, bem, sabe como é, ainda não sei ao certo...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

PSIU!

As flechas que miro em teu silêncio são carpideiras órfãs de um agosto e seu féu.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

PENSAMENTO FROUXO


Teus mamilos de aço, flagelo de sentimentos. Duas torres de afronta, ficadas em vasto mar de medo e arrependimentos. Enfrenta todos os mares só até que a maré realmente decida encontrá-la. Teu dourado é reflexo do sol. Somos chãos, tu és solo, também. Ainda que subas à altura da montanha, será caminho. Somos todos caminhos. Estendas a mão e nos tornaremos, no máximo, estrada maior.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

TEMPLO A VIOLAR




  1. O forro de meu desejo é o veludo, raro, em seu corpo. Costuro vagos itens de memória. Tranço em você pernas trêmulas de vontade. Construo o dia que sua retina estalará, ampla, sob domínio de um prazer de nirvana.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SOLILÓQUIO

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse idiota, abriria muitas portas???!


terça-feira, 19 de julho de 2011

CULPA

Quando bateu o lado desprotegido do meu rosto, entre fragmentos de dentes, clamei à sua consciência um gesto de remorso; quando cravou suas unhas na pele vulnerável dos meus lábios, balbuciei, esforçado, uma frase que atenuasse o impulso de dilacerar; quando suportei no meu maxilar todo impacto do punho inoxidável, ao acordar, chorei. Porque não tive forças suficientes para encontrar um caminho de arrependimento em seu ventre.

sábado, 16 de julho de 2011

VENTRE PARALELO

Projetou-se, do escuro da entrada até a fronteira da porta, com os olhos vermelhos. Deviam estar marejados, há pouco. Não na minha frente. A farda que portava não lhe dava o direito. Além de militar, era pai. Como denunciava a carteira de estudante na extremidade do braço pendente. Parou diante do balcão, em pé, mas sustentando um corpo desfalecido. Achei que me apresentaria a carteirinha.

- Sou o pai da moça que morreu.
Ele trazia na frase a certeza que não precisaria, naquele momento, de uma identidade para se fazer entender. Havia apenas uma moça naquela situação. Não na delegacia. Àquela altura, no repouso frio da câmara gelada, o “podrão”, do Instituto Médico Legal.

Nunca houve frase justificável o suficiente para finalizar o silêncio que imperou. E ainda impera a cada segundo que tento fazer as palavras pousarem neste texto para dar vazão à história. Se a tensão freava tudo antes, o pai da vítima desconstruiu o cenário de crise silenciosa com a frase que me atormentaria desde aquela noite até hoje – e eu jurava que ela ficaria dentre a lista de frases que tememos ouvir, mas nunca são pronunciadas.
- Como foi? Você sabe me dizer como foi?

Eu sabia.

Quando o telefone tocou no início da tarde, parecia mais uma ocorrência provocada pelo excesso de uso de drogas. A rotina faz desse tipo de ocorrência um fato frio. Mais uma vez apenas a vida que se encerrava meio aos leitos e à fedentina de mofo de motéis travestidos de hotéis de quinta.
Ao chegar o local, nada da vítima. Havia sido encaminhada ao hospital em uma ambulância. Ao invés de vestígios que dissessem algo além do que esperávamos para mais um caso de overdose, a informação intrigante de que a ambulância tinha sido chamada pelo acompanhante da moça. Não é comum alguém alertar e fugir. Salvo se for uma testemunha, a quem convém o anonimato.

Com o final dos números e as letras da placa de um carro, cheguei ao dono do veículo. À dona. A surpresa é o fator essencial nas diligências policiais. E ela estava lá, dentro das palavras da proprietária do veículo que atendeu minha ligação.
- Deve haver algum engano, meu senhor. Eu estava dormindo. Meu carro está na garagem...estava...Flávio?! Fláviooo???? Só um momento, policial, estou ligando para...para o meu namorado...

(...barulho de discagem de celular)
- Flávio? Flávio, você saiu de casa?! Com meu carro, seu f...??!! Tem um policial aqui no telefone comigo, sabia?

Em meia hora exata, o tal Flávio deu as caras no meu plantão. Devia mais à namorada do que à Justiça. Só deixou a moça no motel depois da ambulância ter chegado. Prestou socorro.

- Ela que foi me buscar. Em Ceilândia. Disse que tava virada há três dias. Disse que ia pegar um carro pra nóis sair. Ela queria cheirar. Tava bêbada. Fomu pro motel, hotel, sei lá. Ela bateu as carreiras. Cheirei. Ela cheirou. Tentou cheirar. Logo de cara, quando meteu o nariz, o sangue pingou. Caiu durinha e se debateu, babou, babou muito. Espuma pra cacete. Chamei o SAMU. Esperei chegar e pinei! Minha mina ia me matá se soubesse. Ainda vou me fudê, ela já sabe.
O cara pegou o carro da namorada, foi cheirar com outra em um motel, a moça morre. Se queria ficar maluco, conseguiu.

- Queria saber como foi, você sabe, agente?
A frase do pai me tirou do insight.

- Sabe, agente, esta aqui é a minha filha.
Finalmente a carteirinha.

- Ela tinha uns problemas com bebida. Disse que ia parar. Fez vestibular. Educação física. Há três dias, fez a carteirinha de estudante. Veio me entregar. Não tive tempo nem de dar os parabéns. Tinha saído para comemorar com as amigas. Disse pra mãe que não esperasse. Ia demorar. Não sabia que horas voltaria...
Eram palavras ditas com rancor. Com o gosto azedo de um passado que talhava na boca e se pretendia cuspir. Enquanto a carteira em punho era um talismã, a sorte de um futuro que lhe adoçava as idéias, interrompidas, sem que pudesse desfrutar dessa sensação vaga que é ser, ou tentar ser, normal.

- Então, cana, como foi?
- Meu turno é o quinto. To chegando agora. Não sei como foi. E se soubesse, também não falaria.

Fiz um favor ao militar. Ele precisava odiar alguém. Por algum momento. Nesta profissão, à vezes é preciso se doar...